Perspectivas atuais sobre o uso da CBCT em ortodontia
A ortodontia contemporânea utiliza ferramentas de diagnóstico que permitem uma compreensão profunda das estruturas craniofaciais. A radiografia 2D convencional, como a telerradiografia e a panorâmica, continua sendo a base do planejamento ortodôntico para a maioria dos profissionais, oferecendo informações valiosas com baixo custo e técnica consolidada. Todavia, o surgimento da tomografia computadorizada por feixe cônico (CBCT) trouxe uma nova dimensão ao diagnóstico, sendo indicada para casos onde a sobreposição de imagens bidimensionais limita a visualização detalhada.
Uma revisão de escopo recente, publicada no Journal of Clinical Medicine por pesquisadores da Universidade de Catania, mapeou o uso da CBCT em ortodontia através da análise de 37 estudos. A pesquisa foca em entender onde a visão tridimensional oferece benefícios diagnósticos superiores, auxiliando o ortodontista na tomada de decisão em situações de maior complexidade clínica, como assimetrias faciais e dentes impactados.
Evolução da cefalometria: da telerradiografia ao volume 3D
A cefalometria é o pilar do planejamento ortodôntico, e a telerradiografia lateral é a ferramenta mais difundida para essa análise. No entanto, estudos demonstram que a CBCT apresenta maior precisão e reprodutibilidade na identificação de marcos anatômicos (landmarks) e em medidas angulares e lineares, com índices de correlação intraclasse (ICC) superiores a 0.88 em diversos parâmetros.
A tecnologia 3D é especialmente vantajosa em reconstruções de superfícies curvas ou em casos de assimetrias faciais severas. É importante notar que a reorientação da cabeça no software de tomografia pode alterar valores cefalométricos, exigindo que o clínico esteja familiarizado com as ferramentas digitais. Embora a cefalometria 2D continue sendo amplamente utilizada e eficaz para o monitoramento rotineiro, a análise 3D surge como um complemento de alta fidelidade para refinamento diagnóstico em casos específicos.
Limitações inerentes à projeção bidimensional
A projeção bidimensional da telerradiografia lateral introduz erros de ampliação e distorção, além da sobreposição de estruturas do lado direito e esquerdo da face. Em pacientes com discrepâncias esqueléticas transversais ou assimetrias mandibulares, essa sobreposição mascara a real condição clínica. A CBCT elimina o ruído visual das estruturas sobrepostas, permitindo que o ortodontista visualize cada lado da face de forma independente e precisa.
Diagnóstico de reabsorção radicular e reabsorções externas
A detecção precoce de reabsorções radiculares é um dos pontos onde a CBCT em ortodontia demonstra superioridade técnica. Pesquisas confirmam que a tomografia é significativamente mais sensível do que as radiografias periapicais ou panorâmicas para identificar pequenas lesões, especialmente em dentes submetidos a movimentações intensas ou com histórico de trauma.
A visualização em múltiplos planos (axial, sagital e coronal) permite quantificar a perda de estrutura radicular sem as distorções ou sobreposições comuns aos exames convencionais. Essa sensibilidade é determinante para ajustar a mecânica ortodôntica e garantir a integridade dos elementos dentários durante o tratamento. Em casos de reabsorções cervicais externas, a CBCT permite identificar o ponto exato da invasão, o que é inviável na radiografia panorâmica de rotina.
Angulação radicular e o manejo de caninos inclusos
O posicionamento de caninos inclusos representa um dos maiores desafios na prática ortodôntica. Nestes casos, a CBCT fornece informações cruciais sobre a trajetória de irrupção, a relação com dentes adjacentes e o volume de osso alveolar disponível. Estudos indicam que o acesso a imagens tridimensionais pode alterar o plano de tratamento em casos graves, permitindo uma abordagem cirúrgica e mecânica mais assertiva para o tracionamento.
Além disso, a avaliação do paralelismo radicular é otimizada pela visão 3D. Enquanto a radiografia panorâmica pode sofrer distorções de projeção que mascaram a inclinação real das raízes, a CBCT oferece uma representação fiel da posição dentária em relação às bases ósseas, evitando erros de finalização ortodôntica e reabsorções indesejadas por contato radicular.
Avaliação do suporte ósseo alveolar
Outro diferencial da CBCT é a avaliação das tábuas ósseas vestibulares e linguais. Na ortodontia convencional, o limite biológico da movimentação dentária é estimado, mas a tomografia permite medir a espessura óssea real. Isso previne deiscências e fenestrações ósseas durante a expansão das arcadas ou a compensação de maloclusões de Classe III, onde o incisivo inferior muitas vezes se encontra no limite da sínfise mandibular.
Aplicações complementares: vias aéreas e ancoragem esquelética
O uso da CBCT expande-se para além da cefalometria e do posicionamento dentário, abrangendo áreas que impactam diretamente a saúde geral e a estabilidade do tratamento:
Vias aéreas: A análise volumétrica das vias respiratórias superiores permite quantificar o espaço aéreo orofaríngeo e nasofaríngeo. Isso auxilia no diagnóstico interdisciplinar de distúrbios respiratórios do sono e na avaliação dos efeitos de expansões rápidas da maxila.
Mini-implantes (Miniscrews): A CBCT facilita a escolha do sítio de inserção ideal para ancoragem esquelética, permitindo que o profissional avalie a espessura da cortical óssea e o espaço exato entre as raízes, minimizando riscos de injúrias radiculares.
Colagem indireta e brackets: A integração de arquivos DICOM com modelos digitais (STL) otimiza o planejamento de braquetes e alinhadores, garantindo que o acessório seja colado na posição ideal em relação ao longo eixo da raiz.
Integração tecnológica e o princípio ALARA
A transição da documentação ortodôntica 2D para a baseada em tomografia deve ser feita de forma criteriosa. A telerradiografia permanece como um padrão confiável e acessível devido à facilidade de leitura e menor custo para o paciente. É natural que muitos profissionais ainda prefiram os métodos convencionais, uma vez que a formação acadêmica tradicional é fortemente baseada em traçados cefalométricos bidimensionais.
A indicação da CBCT deve respeitar o princípio ALARA (As Low As Reasonably Achievable), sendo reservada para situações onde a imagem convencional não é capaz de responder às dúvidas diagnósticas ou onde a precisão milimétrica é indispensável. O ortodontista moderno deve buscar o equilíbrio entre o avanço tecnológico e a proteção radiológica, utilizando FOVs (campos de visão) restritos sempre que possível.
O conhecimento técnico para interpretar volumes tomográficos e realizar marcações em 3D é uma competência que vem sendo incorporada gradualmente. O apoio de centros de diagnóstico especializados é o que viabiliza essa transição, fornecendo laudos detalhados e reconstruções que facilitam a aplicação clínica sem exigir que o ortodontista domine softwares complexos de manipulação DICOM.
Considerações finais
A CBCT em ortodontia não invalida a importância da cefalometria e das radiografias tradicionais, mas atua como uma ferramenta de alta performance para diagnósticos complexos. A capacidade de visualizar reabsorções, dentes inclusos, assimetrias e a espessura do suporte ósseo com total fidelidade anatômica aumenta a previsibilidade e a segurança dos tratamentos ortodônticos. A evidência científica aponta que, em casos de dúvida, a visão tridimensional é o caminho para evitar complicações biomecânicas e garantir resultados estáveis.
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Referência:
Polizzi A, Serra S, Leonardi R. Use of CBCT in Orthodontics: A Scoping Review. J Clin Med. 2024 Nov 18;13(22):6941. doi: 10.3390/jcm13226941