Avaliação de alterações degenerativas da ATM com tomografia CBCT
A articulação temporomandibular (ATM) é uma das estruturas mais complexas do corpo humano, e seu componente ósseo exige uma análise detalhada para a identificação de patologias e processos adaptativos. As radiografias convencionais muitas vezes falham em fornecer uma visão clara devido à sobreposição de estruturas da base do crânio. Nesse cenário, a tomografia computadorizada de feixe cônico (CBCT) consolidou-se como a modalidade de escolha para a avaliação dos componentes ósseos da ATM.
A tomografia permite a visualização tridimensional do côndilo mandibular, da fossa glenóide e da eminência articular com alta resolução espacial. Essa capacidade diagnóstica é fundamental para detectar alterações degenerativas precoces que podem impactar diretamente o planejamento ortodôntico, protético e cirúrgico do cirurgião-dentista.
Prevalência de alterações degenerativas em grandes amostras
Um estudo recente avaliou 1.636 côndilos de 818 pacientes (214 homens e 604 mulheres), utilizando CBCT para investigar a prevalência de alterações degenerativas e variações anatômicas da ATM. Pelo menos uma alteração degenerativa foi identificada em 78,6% dos côndilos avaliados, enquanto apenas 21,4% não apresentaram qualquer alteração óssea detectável.
Esses dados mostram que achados degenerativos são extremamente comuns em exames de ATM, mesmo em populações que não foram selecionadas especificamente por dor ou disfunção. Além disso, as alterações tendem a ocorrer em combinação, reforçando a ideia de que a ATM passa por um processo dinâmico de remodelação e degeneração ao longo da vida.
Principais achados degenerativos identificados na tomografia CBCT
A interpretação sistemática das imagens permitiu classificar as alterações de acordo com sua morfologia e frequência. Entre os 1.636 côndilos avaliados, os achados mais prevalentes foram:
Flattening (aplainamento): observado em 31,4% dos côndilos, caracteriza-se pela perda da convexidade fisiológica da superfície condilar;
Erosão: presente em 28,9%, manifesta-se como irregularidade ou interrupção da cortical óssea, indicando estágio mais ativo de remodelação e possível perda mineral;
Osteófitos: identificados em 27,2% da amostra, representam proliferações ósseas marginais, geralmente associadas a sobrecarga crônica e tentativa de aumentar a área de suporte de carga;
Esclerose subcondral: encontrada em 16,1% dos côndilos, caracterizada por aumento de densidade óssea logo abaixo da cortical articular;
Cistos subcondrais (Ely cysts): detectados em 12,2% dos casos, como áreas radiolúcidas delimitadas por halo esclerótico no interior da cabeça do côndilo.
A associação entre essas alterações também foi investigada. Em especial, a formação de osteófitos mostrou correlações estatisticamente significativas com outras alterações degenerativas (p<0,001): côndilos com osteófitos apresentaram frequência bem maior de flattening, erosão, esclerose subcondral e cistos subcondrais. Isso reforça o papel do osteófito como marcador de um estágio mais avançado e multifatorial do processo degenerativo.
Alta prevalência de cistos subcondrais
Um dado que chama atenção é a prevalência de cistos subcondrais em 12,2% dos côndilos, valor consideravelmente superior às faixas de 1% a 5% frequentemente descritas em estudos anteriores. Essa diferença pode refletir:
inclusão de uma proporção importante de pacientes de maior idade;
melhora na capacidade de detecção graças à resolução da CBCT;
características específicas da população analisada.
Nos indivíduos com 61 anos ou mais, a frequência de cistos foi ainda maior, atingindo valores próximos de 17%. Isso sugere que essas cavidades podem estar relacionadas a sobrecarga mecânica crônica, microfraturas e remodelação óssea prolongada, funcionando como marcador de estágios avançados de osteoartrose da ATM.
Influência da idade: estratificação por faixas etárias
A prevalência das alterações não é uniforme entre as faixas etárias. O estudo dividiu os pacientes em quatro grupos: 16–30, 31–45, 46–60 e ≥61 anos, e observou tendências claras de aumento de degeneração com o envelhecimento:
Flattening:
16–30 anos: aproximadamente 28%;
31–45 anos: cerca de 29–30%;
46–60 anos: em torno de 30,5%;
≥61 anos: sobe para cerca de 36,1%.
Osteófitos:
16–30 anos: ~18,2%;
31–45 anos: ~26,3%;
46–60 anos: ~29,5%;
≥61 anos: perto de 29%.
Esclerose subcondral:
16–30 anos: ~7,8%;
31–45 anos: ~10,7%;
46–60 anos: ~11,3%;
≥61 anos: aumenta para 17,2%.
Cistos subcondrais:
valores mais baixos nas faixas etárias jovens;
aumento progressivo, com maior concentração no grupo ≥61 anos.
Esses dados reforçam que a frequência e a complexidade das alterações degenerativas crescem com a idade, sendo comum encontrar, em pacientes idosos, combinações de aplainamento, osteófitos, esclerose e cistos no mesmo côndilo.
Diferenças de gênero nas alterações degenerativas
O estudo também avaliou a influência do sexo na prevalência das alterações. Entre os 818 pacientes, 214 eram homens (26,2%) e 604 mulheres (73,8%). Na análise dos 1.636 côndilos, foram observadas diferenças estatisticamente significativas (p<0,05) para alguns achados:
Erosão: mais frequente em mulheres (aproximadamente 32%) do que em homens (cerca de 20%);
Osteófitos: prevalência maior em mulheres (em torno de 29%) do que em homens (aprox. 22%);
Cistos subcondrais: também mais comuns no sexo feminino (por volta de 17,5%) em comparação ao masculino (cerca de 12%).
Esses resultados sugerem que fatores hormonais, padrões de carga funcional ou maior prevalência de queixas e encaminhamentos em mulheres podem contribuir para essa diferença. Em qualquer caso, o dado reforça a necessidade de interpretar achados radiográficos dentro do contexto demográfico do paciente.
Posição condilar na fossa: um componente muitas vezes ignorado.
Além das alterações morfológicas do côndilo, o estudo avaliou a posição condilar na fossa glenoide. Entre os 1.636 côndilos analisados, a distribuição foi:
Posição anterior: 19,1%;
Posição cêntrica: 62,0%;
Posição posterior: 18,9%;
Quando estratificado por idade, observou-se que:
Posições mais anteriores são mais frequentes em indivíduos jovens;
A posição posterior do côndilo torna-se progressivamente mais comum com o avanço da idade.
Essa tendência sugere que alterações estruturais e funcionais acumuladas ao longo dos anos podem levar a uma migração relativa do côndilo para uma posição mais posterior, possivelmente associada a desgaste articular e remodelação óssea.
Outros achados importantes
O estudo também incluiu achados menos frequentes, mas clinicamente relevantes:
Espessamento da fossa glenoide: observado em 3,9% dos côndilos e interpretado como sinal de remodelação adaptativa a longo prazo, possivelmente ligado a sobrecarga crônica;
Estreitamento do espaço articular: identificado em 9,4% dos casos, associado à degeneração do disco ou da cartilagem articular e está frequentemente relacionado a estágios mais avançados de osteoartrose
Relação entre estreitamento e espessamento da fossa: em côndilos com estreitamento do espaço articular, o espessamento da fossa foi encontrado em cerca de 15%; entre aqueles sem estreitamento, esse valor caiu para aproximadamente 2,8%. Essa associação indica um processo degenerativo bidirecional, envolvendo tanto o côndilo quanto a fossa glenoide.
Corpo livre intra-articular (loose body): detectado em cerca de 1,0% dos côndilos, geralmente associado a estágios mais avançados de degeneração ou processos como condromatose sinovial.
Côndilo bífido: observado em 1,3% dos casos, considerado em muitos casos uma variação anatômica, frequentemente assintomática. O estudo não encontrou associação consistente entre côndilo bífido e demais alterações degenerativas, sugerindo que, na maior parte das vezes, trata-se mais de uma variação morfológica do que de um marcador de doença articular ativa.
Desafios na interpretação radiológica
Um ponto de extrema relevância para o cirurgião-dentista é compreender que nem todos os achados observados na tomografia estão diretamente associados a sintomas clínicos de disfunção temporomandibular (DTM). Muitas vezes, alterações como o aplainamento podem representar apenas uma adaptação funcional do osso às forças mastigatórias.
A interpretação exagerada de achados radiográficos pode levar a tratamentos desnecessários. Por outro lado, o subdiagnóstico de erosões ativas pode resultar na progressão de doenças articulares sistêmicas ou locais. Portanto, a tomografia deve ser sempre correlacionada com a anamnese e o exame físico do paciente. O papel do dentista é utilizar o detalhamento da CBCT para monitorar a estabilidade dessas alterações ao longo do tempo.
Eficácia da tomografia CBCT no diagnóstico detalhado
A eficácia da tomografia em visualizar alterações ósseas é superior a qualquer outro método de imagem odontológico disponível na rotina clínica. A ausência de distorção e a possibilidade de realizar cortes milimétricos permitem que o profissional avalie a integridade da cortical óssea em áreas de difícil acesso.
Além da avaliação do côndilo, a tomografia possibilita analisar a relação espacial entre os componentes da ATM. Isso inclui a verificação do espaço articular e a posição condilar dentro da fossa, informações que auxiliam no diagnóstico diferencial de diversas patologias articulares. A padronização dos protocolos de aquisição de imagem é recomendada para garantir a reprodutibilidade das mensurações e o acompanhamento longitudinal dos casos.
Conclusão técnica
A avaliação por tomografia das alterações degenerativas da ATM revela uma alta prevalência de achados ósseos, mesmo em pacientes assintomáticos. Compreender que o aplainamento, a erosão e os osteófitos são as manifestações mais comuns permite ao cirurgião-dentista realizar uma leitura mais precisa dos exames. A CBCT permanece como um importante método para o diagnóstico por imagem das desordens ósseas da ATM, oferecendo o detalhamento necessário para um planejamento clínico seguro e fundamentado.
Na Fenelon Diagnósticos Odontológicos por Imagem, priorizamos a alta resolução e a precisão técnica na captura de imagens da ATM, fornecendo suporte diagnóstico essencial para a sua conduta clínica.
Referência:
Öçal MÇ, Daldal M, Baybars SC, Katı E. Radiographic evaluation of degenerative findings in the temporomandibular joint using CBCT: a prevalence-based study. BMC Oral Health. 2026 Mar 9. doi: 10.1186/s12903-026-08065-4