Avaliação do forame zigomaticofacial por tomografia CBCT
A avaliação precisa do forame zigomaticofacial (ZFF) é um aspecto essencial no planejamento de cirurgias com implantes zigomáticos. Como estrutura anatômica que abriga a emergência do nervo zigomaticofacial (ZFN), o ZFF se localiza no osso zigomático e participa diretamente da inervação da região malar. Sua proximidade com trajetórias cirúrgicas torna imprescindível o seu reconhecimento para evitar complicações neurovasculares.
Nesse contexto, a escolha da modalidade de imagem é decisiva. Um estudo [1] recente comparou a tomografia computadorizada convencional (CT) com a tomografia computadorizada por feixe cônico (CBCT) na visualização do ZFF, buscando identificar qual técnica oferece maior confiabilidade para o planejamento clínico e cirúrgico individualizado.
Função anatômica do forame zigomaticofacial
O forame zigomaticofacial permite a passagem do nervo zigomaticofacial, ramo do nervo zigomático, que por sua vez deriva do nervo maxilar (V2). Este nervo inerva a pele da região malar, e, em alguns casos, é acompanhado por um ramo da artéria infraorbital. Por se tratar de uma estrutura superficial acessada durante o descolamento subperióstico, é também uma área de risco para traumas diretos durante a instalação de implantes zigomáticos.
O nervo zigomaticofacial tem trajetória variável, podendo emergir por um ou mais forames. Essa variabilidade anatômica impacta diretamente o risco de lesões iatrogênicas. Além disso, a ausência de forames em algumas situações também deve ser considerada, pois pode estar associada a trajetórias alternativas do nervo ou a variantes anatômicas relevantes para a cirurgia.
CBCT e CT na visualização do ZFF: desenho do estudo
A pesquisa retrospectiva envolveu 200 exames de imagem (100 CTs e 100 CBCTs), analisando um total de 400 ossos zigomáticos. A avaliação foi conduzida por dois observadores independentes, utilizando múltiplas secções (axial, coronal, sagital e tangencial). O estudo apresentou índice de correlação intraclasse (ICC) de 0,996, indicando excelente concordância entre os avaliadores.
Critérios de exclusão incluíram pacientes com anomalias do desenvolvimento, patologias que afetassem a região zigomática ou imagens com qualidade insatisfatória. Ambos os métodos forneceram visualização em alta resolução, com fatiamento em cortes de 1 mm.
Resultados principais: número e localização dos forames
O número total de forames identificados foi de 270 nas imagens de CT e 267 nas de CBCT, sem diferença estatisticamente significativa (p > 0,05). A ocorrência de um forame por lado foi o padrão mais comumente encontrado (48% dos casos), seguido por dois forames (31,2%). A ausência completa de forames foi observada em 13,5% dos casos, sendo um dado importante para alertar sobre trajetórias anatômicas não usuais.
Forames triplos, quádruplos e quíntuplos foram encontrados em 5,5%, 1,5% e 0,2% dos casos, respectivamente. Esses achados estão de acordo com a literatura anatômica, que relata presença de até seis forames em casos raros. Um dado relevante é que o lado esquerdo apresentou discretamente mais forames (média de 1,39) que o lado direito (média de 1,30), embora sem diferença estatisticamente significativa.
Houve correlação positiva significativa entre os lados (r = 0,672; p < 0,001), sugerindo que a presença de múltiplos forames em um lado pode indicar padrão semelhante no lado contralateral. Tal informação tem valor preditivo em situações em que a visualização unilateral for limitada.
Com relação ao sexo, a análise mostrou diferença significativa: mulheres apresentaram em média 1,47 forames por osso zigomático, enquanto homens apresentaram 1,20 (p = 0,012). Esse achado, confirmado especialmente na amostra CBCT, ressalta a importância da individualização do planejamento cirúrgico com base em fatores biológicos.
A idade dos pacientes não demonstrou correlação estatisticamente significativa com o número de forames (r = -0,116; p > 0,05), sugerindo que a morfologia do ZFF permanece estável com o passar dos anos.
Relevância clínica da identificação do ZFF
As alterações sensitivas na região malar após cirurgias com implantes zigomáticos têm sido associadas a traumatismos no ZFN durante o descolamento ou a perfuração do osso zigomático. Dessa forma, a detecção acurada do forame permite traçar rotas cirúrgicas que minimizem esse risco, contribuindo para a prevenção de parestesias e outras disfunções neurovasculares.
Apesar de estudos anatômicos anteriores com crânios secos terem descrito a variabilidade do ZFF, o uso de exames de imagem é essencial para avaliação individualizada em pacientes vivos. O CBCT tem se destacado por permitir essa análise com alto detalhamento tridimensional.
Benefícios da CBCT em relação à CT
A equivalência diagnóstica entre CBCT e CT na detecção do ZFF, demonstrada neste estudo, permite que a escolha da modalidade leve em consideração outros fatores clínicos relevantes:
Menor dose de radiação: a CBCT opera com doses significativamente menores que a CT, atendendo ao princípio ALARA (As Low As Reasonably Achievable).
Alta precisão espacial: mesmo com menor carga radiológica, oferece excelente resolução para estruturas ósseas finas e pequenos forames.
Segurança aprimorada: o CBCT permite identificação pré-operatória de variantes anatômicas que podem predispor a complicações;
- Maior previsibilidade: o detalhamento anatômico confere ao cirurgião mais controle sobre o acesso cirúrgico, reduzindo a necessidade de modificações intraoperatórias.
Com esses dados, o CBCT se posiciona como a opção preferencial para a avaliação do ZFF no contexto de planejamento de implantes zigomáticos, sem prejuízo da confiabilidade diagnóstica.
Considerações finais
O forame zigomaticofacial deve ser sistematicamente avaliado antes de qualquer intervenção que envolva a região zigomática. A CBCT provou-se equivalente à CT convencional para esse propósito, com vantagens adicionais em termos de radiação e custo.
Na Fenelon Diagnósticos Odontológicos por Imagem, os exames de tomografia computadorizada são realizados com equipamentos de alta precisão, conforme indicação clínica do cirurgião-dentista responsável, contribuindo com o planejamento odontológico especializado.
Referência:
[1] Aksoy F, Sumer T, Esen EE, Tanrivermis Sayit A, Bulut E. Evaluation of the Zygomaticofacial Foramen Through Computed and Cone Beam Computed Tomography Imaging. J Craniofac Surg. 2025 Dec 31. doi: 10.1097/SCS.0000000000012290