Tomografia Cone Beam na avaliação óssea

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Tomografia Cone Beam na avaliação óssea de paciente com más oclusões

A avaliação da anatomia alveolar anterior é determinante para o planejamento ortodôntico, sobretudo em casos que envolvem movimentações significativas de incisivos. A relação entre padrão esquelético, morfologia óssea e risco de defeitos como deiscências e fenestrações assume papel crítico em abordagens de camuflagem, retrações extensas ou torque labiolingual, em que a proximidade com as corticais pode limitar a biomecânica ou comprometer a estabilidade periodontal.

Um novo estudo publicado na revista BMC Oral Health, fundamentado em Tomografia Cone Beam, analisou de forma detalhada a espessura óssea e a prevalência desses defeitos em dentes anteriores maxilares e mandibulares de indivíduos com diferentes más oclusões esqueléticas. Os achados reforçam a importância da avaliação tridimensional minuciosa e mostram que, mesmo em regiões com espessura considerada suficiente, defeitos ósseos podem estar presentes e representar risco clínico relevante.

Morfologia alveolar: influência direta do padrão esquelético

A Tomografia Cone Beam permitiu mensurar com precisão a espessura das corticais vestibular e lingual em incisivos superiores e inferiores, revelando diferenças marcantes entre os tipos de padrões esqueléticos. De acordo com o estudo, pacientes Classe III apresentaram maior prevalência de deiscência e fenestração, especialmente na região anterior mandibular, enquanto indivíduos Classe II apresentaram maior preservação da cortical vestibular em incisivos superiores.

Essas variações não são apenas anatômicas, mas influenciam diretamente as possibilidades terapêuticas. Em pacientes Classe III, a posição vestibularizada dos incisivos inferiores reduz o envelope alveolar disponível, tornando retrações, correções de torque ou inclinações linguais mais suscetíveis à perfuração cortical. Já em Classe II, incisivos superiores com padrão de inclinação vestibular podem apresentar áreas de fragilidade mesmo quando a espessura alveolar parece favorável em avaliação bidimensional.

A distribuição dessas diferenças também se relaciona com a altura radicular analisada: espessuras reduzidas e defeitos ósseos foram particularmente evidentes na porção mediana e apical das raízes.

Deiscência e fenestração: prevalências reveladas pela Tomografia Cone Beam

A capacidade da Tomografia Cone Beam para identificar defeitos ósseos discretos foi fundamental para os achados do estudo. A detecção de deiscências e fenestrações mostrou-se significativamente superior à observada em avaliações clínicas ou radiografias tradicionais. Segundo os dados, incisivos inferiores apresentaram maior prevalência de deiscência, enquanto incisivos superiores foram mais afetados por fenestrações, padrão que se repetiu independentemente do tipo de má oclusão, mas com intensificação nos grupos Classe III.

A Tomografia Cone Beam permitiu identificar que defeitos podem estar presentes mesmo quando a espessura óssea total aparenta ser adequada. Em diversas situações, a cortical vestibular apresentava espessura mínima, com adelgaçamento progressivo em direção à crista óssea. Essa configuração cria uma área de risco durante movimentações ortodônticas, principalmente em retrações com necessidade de torque lingual para incisivos superiores e inferiores.

Fenestrações também foram observadas em áreas onde a raiz se projetava discretamente além do limite cortical, configurando situações de risco elevado para recessão gengival futura, sobretudo em pacientes com biótipo periodontal fino.

Assimetrias entre maxila e mandíbula

A análise tridimensional revelou diferenças importantes entre os arcos. A mandíbula apresentou maior prevalência de deiscências, com incisivos centrais exibindo áreas extensas de exposição radicular óssea parcial. A maxila, por outro lado, apresentou maior ocorrência de fenestrações, provavelmente associada à inclinação natural dos incisivos superiores e ao padrão de espessura vestibular mais delgado.

Essas diferenças influenciam diretamente a abordagem ortodôntica. No arco mandibular, movimentos que aumentem a inclinação vestibular dos incisivos inferiores têm maior risco de ultrapassar o envelope alveolar. Na maxila, retrações extensas ou correções de proclinação podem evidenciar ou ampliar fenestrações pré-existentes.

Outro achado importante é que a simples comparação entre lados direito e esquerdo se mostrou insuficiente na avaliação tradicional. A Tomografia Cone Beam evidenciou assimetrias consideráveis, reforçando a necessidade de avaliação individualizada para cada raiz, especialmente em casos de discrepâncias na linha média ou padrões de mastigação unilateral.

Implicações clínicas para o planejamento ortodôntico

A Tomografia Cone Beam tem papel determinante no planejamento de movimentações em incisivos, principalmente quando há necessidade de retrações extensas, controle rigoroso de torque ou camuflagem de más oclusões moderadas. A combinação entre espessura óssea reduzida e defeitos já existentes pode limitar o potencial mecânico seguro e aumentar o risco de complicações, como recessão gengival, perda de suporte periodontal ou perfuração cortical.

Os achados do estudo destacam que, mesmo em pacientes onde a avaliação clínica sugere boa espessura alveolar, a Tomografia Cone Beam pode revelar áreas de risco não visíveis em radiografias convencionais. Isso implica que decisões baseadas exclusivamente em modelos 2D podem resultar em planejamento inadequado, especialmente em casos de camuflagem Classe III, onde incisivos inferiores já apresentam tendência ao posicionamento vestibular extremo.

Nesse cenário, o uso da Tomografia Cone Beam permite prever o envelope alveolar disponível, ajustar a biomecânica e definir limites seguros para cada dente. Em situações limítrofes, pode orientar estratégias complementares, como uso de mini-implantes, expansão controlada, intrusão ou até indicação de cirurgia ortognática quando a compensação dentária ultrapassa a capacidade óssea.

Movimentações ortodônticas e risco periodontal

A posição radicular dentro do osso alveolar é um dos fatores mais significativos na manutenção da saúde periodontal ao longo do tratamento. Nas raízes com inclinação excêntrica e corticais delgadas, o risco de causar ou agravar uma deiscência é maior. A Tomografia Cone Beam permite visualizar o contato radicular com a cortical e estimar o quanto a raiz pode se deslocar sem comprometer o revestimento ósseo.

O estudo também destaca que a prevalência de deiscências e fenestrações não depende apenas da espessura óssea, mas de fatores como morfologia radicular individual, padrão de crescimento facial e torque dentário prévio. Essas interações tornam o planejamento ortodôntico ainda mais complexo, exigindo análises tridimensionais individualizadas.

Além disso, a presença de defeitos ósseos pré-existentes pode explicar casos de recessões gengivais observadas após movimentações aparentemente leves. Ao identificar essas áreas antes do tratamento, o ortodontista pode evitar movimentos arriscados e manter o dente dentro de um envelope ósseo seguro.

Relevância da Tomografia Cone Beam na identificação de riscos ocultos

Um dos pontos mais importantes do estudo é a constatação de que defeitos ósseos podem estar presentes mesmo quando a espessura alveolar parece adequada em uma visão convencional. Isso significa que a espessura total do osso vestibular não é o único parâmetro relevante; a presença de regiões apicais estreitas, microfenestrações e áreas de cortical extremamente fina podem limitar a movimentação.

A avaliação tridimensional permite identificar essas características com precisão, definir o limite fisiológico de movimentação e reduzir o risco de danos irreversíveis ao periodonto. O estudo reforça que essa abordagem deve ser prioridade especialmente em casos com discrepâncias esqueléticas mais acentuadas.

Na Fenelon Diagnósticos Odontológicos por Imagem, os exames de tomografia computadorizada são realizados com equipamentos de alta precisão, conforme indicação clínica do cirurgião-dentista responsável, contribuindo com o planejamento odontológico especializado.

Referência:
[1] Tunca, Y., Kaya, S., Bilen, S. et al. Evaluation of bone thickness, presence of dehiscence and fenestration in maxillary and mandibular anterior teeth of individuals with various malocclusions: a cone-beam computed tomography study. BMC Oral Health 25, 1771 (2025). https://doi.org/10.1186/s12903-025-07157-x

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