CBCT e diagnóstico endodôntico

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CBCT em Endodontia: avanços que elevam o diagnóstico endodôntico

A precisão diagnóstica é determinante para o sucesso em endodontia. A prática clínica ainda depende fortemente da interpretação de sinais clínicos associados a exames de imagem, mas a limitação inerente às radiografias periapicais compromete a visualização tridimensional das estruturas. O artigo recente CBCT in Endodontics: Revolutionizing Endodontic Diagnosis and Treatment [1] reforça esse cenário ao demonstrar, com evidências quantitativas, que a tomografia computadorizada de feixe cônico (CBCT) modifica condutas em mais de 60% dos casos avaliados, evidenciando sua relevância para decisões clínicas mais qualificadas.

A compressão de estruturas tridimensionais em um plano bidimensional reduz a acurácia diagnóstica, gera sobreposição anatômica e dificulta a identificação de fraturas, lesões iniciais e variações anatômicas. A CBCT supera essas limitações ao fornecer reconstruções multiplanares (axial, sagital e coronal) com voxel submilimétrico e resolução suficiente para avaliação endodôntica. Isso permite compreender a anatomia radicular, identificar padrões ósseos associados a patologias e analisar a relação com estruturas nobres.

Impacto da CBCT no diagnóstico endodôntico

Segundo o estudo, exames que compararam radiografias periapicais com CBCT mostraram discrepâncias importantes no diagnóstico e no planejamento terapêutico. Em uma análise envolvendo três examinadores, as decisões de tratamento foram alteradas em 56,6% a 66,7% dos casos após a visualização da CBCT, com média global de 62,2% de mudança de conduta .

A acurácia do diagnóstico também aumentou substancialmente:

  • 36,6% a 40% dos casos foram diagnosticados corretamente com radiografias periapicais;

  • 76,6% a 83,3% foram diagnosticados corretamente com CBCT.

Esse ganho é especialmente relevante em condições como fraturas radiculares verticais, reabsorções cervicais externas e lesões perirradiculares discretas, muitas vezes imperceptíveis em projeções bidimensionais. As imagens tridimensionais fornecem avaliação topográfica precisa, permitindo prever extensão e profundidade de defeitos, orientar o prognóstico e possibilitar abordagens conservadoras quando viáveis.

Como a CBCT, fraturas cervicais podem ser detectadas por padrões de reabsorção óssea adjacente mesmo antes da fratura estar visível ao exame clínico. Essa antecipação favorece intervenções mais previsíveis e reduz o risco de tratamentos inadequados .

Detecção de fraturas

Fraturas radiculares verticais e trincas marginais representam desafios recorrentes na endodontia. A apresentação clínica pode incluir dor difusa, presença de fístulas, bolsas localizadas ou sensibilidade à mastigação, sinais que não são específicos e muitas vezes não se correlacionam de forma clara com a imagem bidimensional. A CBCT apresenta vantagens importantes ao permitir identificar padrões ósseos e alterações estruturais que antecedem a visualização direta da linha de fratura.

A CBCT é capaz de revelar perda óssea localizada no terço médio da raiz com manutenção do osso coronal e apical, ausência parcial ou total da tábua óssea vestibular, rarefações lineares ao longo do trajeto da raiz e espaços discretos entre a raiz e as corticais adjacentes, achados compatíveis com fraturas radiculares. Em diversos casos documentados no novo estudo, a tomografia permitiu visualizar a extensão total da trinca antes de qualquer abordagem cirúrgica, permitindo decisão clínica mais segura e comunicação clara com o paciente sobre prognóstico e alternativas terapêuticas.

Reabsorções dentárias

A CBCT é igualmente decisiva no manejo das reabsorções dentárias. Lesões cervicais externas, reabsorções internas, reabsorções inflamatórias decorrentes de patologia periapical ou defeitos traumáticos, apresentam comportamento tridimensional que não é adequadamente representado em radiografias periapicais. A CBCT permite identificar o ponto de origem da lesão, definir sua profundidade, avaliar a proximidade da polpa ou do periodonto e diferenciar entre diferentes tipos de reabsorção, o que é determinante para direcionar a conduta.

A precisão tridimensional facilita a avaliação do grau de comunicação entre a reabsorção e o canal radicular, permitindo determinar se há viabilidade para abordagem conservadora ou se o comprometimento estrutural inviabiliza o tratamento. A imagem volumétrica possibilita ainda reconhecer lesões localizadas nas superfícies palatina, lingual ou vestibular, frequentemente invisíveis na radiografia convencional.

Planejamento cirúrgico preciso

A microcirurgia endodôntica exige planejamento detalhado da relação entre o ápice radicular e estruturas nobres, como o canal mandibular, o forame mentual e o seio maxilar. A CBCT proporciona acurácia geométrica superior, permitindo determinar a profundidade da lesão, a espessura da tábua óssea, a inclinação radicular, o tamanho da janela cirúrgica e o trajeto ideal para acesso.

A tomografia pode ser essencial para identificar perfurações sinusais associadas a lesões periapicais, localizar raízes próximas ao feixe vásculo-nervoso mandibular, avaliar remodelação óssea pós-operatória e planejar abordagens minimamente invasivas em casos de espessura óssea reduzida. A qualidade tridimensional da CBCT permite estimar com precisão a extensão da lesão e reduzir o risco de danos iatrogênicos durante a osteotomia e o preparo do ápice.

Navegação estática e dinâmica

A navegação estática consiste na confecção de guias baseadas na integração entre o volume tomográfico e o escaneamento intraoral. Embora simples em sua concepção, essa abordagem apresenta grande valor clínico, sobretudo em dentes com calcificação severa. As guias direcionam o instrumento de acesso em trajetória predefinida, permitindo manter um preparo conservador e reduzindo o risco de perfuração.

O artigo descreve casos de canais calcificados nos quais a navegação estática assegurou acesso seguro, manutenção da estrutura coronária e radicular e padronização do trajeto em dentes anteriores e posteriores. A previsibilidade dessa técnica contribui para reduzir o tempo clínico, aumentar a segurança durante o acesso e melhorar a preservação de tecido dentário saudável.

A navegação dinâmica complementa o uso da CBCT ao oferecer orientação tridimensional em tempo real durante o procedimento. O sistema correlaciona a posição do instrumento com o volume tomográfico previamente adquirido, permitindo ajustes instantâneos ao longo da execução. Essa tecnologia aumenta a precisão sem a necessidade de guias estáticas, favorece a preservação de estrutura, melhora a segurança em acessos profundos e permite correções intraoperatórias que seriam inviáveis com abordagens convencionais. A combinação entre CBCT e navegação dinâmica eleva a previsibilidade em cenários que tradicionalmente apresentam maior risco de falhas e complicações.

Considerações finais

A tomografia computadorizada de feixe cônico representa um marco na evolução do diagnóstico e do planejamento endodôntico. As evidências apresentadas demonstram que a CBCT modifica condutas em mais de 60% dos casos avaliados, amplia a acurácia diagnóstica, permite identificar fraturas e reabsorções de forma precoce e confere maior segurança ao planejamento de cirurgias e acessos complexos por navegação.

Na Fenelon Diagnósticos Odontológicos por Imagem, os exames de tomografia computadorizada são realizados com equipamentos de alta precisão, conforme indicação clínica do cirurgião-dentista responsável, contribuindo com o planejamento odontológico especializado.

Referência:
[1] Fayad MI, Villa-Machado P. CBCT in Endodontics: Revolutionizing Endodontic Diagnosis and Treatment. Dent Clin North Am. 2025 Oct;69(4):497-514. doi: 10.1016/j.cden.2025.05.001

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