Tomografia em ortodontia: falhas em dispositivos de ancoragem
O controle adequado da ancoragem é um dos pilares para o sucesso do tratamento ortodôntico. A previsibilidade na movimentação dentária depende de um sistema de forças equilibrado, e nesse contexto, os dispositivos de ancoragem temporária (DATs) se tornaram recursos amplamente utilizados. Esses miniparafusos são aplicados para fornecer suporte mecânico estável durante o movimento dentário, permitindo um melhor controle das unidades ativas e passivas do aparelho ortodôntico.
Embora apresentem altas taxas de sucesso, os DATs estão sujeitos a falhas que comprometem a ancoragem e exigem novas intervenções. Entre as principais causas estão o contato radicular, a densidade óssea inadequada e variações anatômicas individuais.
Uma pesquisa publicada em 2024 no Journal of Oral Science [1] investigou, por meio de tomografia computadorizada de feixe cônico (TCFC), os fatores que influenciam a falha desses dispositivos instalados na região vestibular entre os segundos pré-molares superiores e os primeiros molares. Os resultados reforçam a importância da avaliação tridimensional antes da instalação dos DATs.
Falhas de DATs: uma questão multifatorial
Os DATs são confeccionados em liga de titânio e funcionam com base na retenção mecânica, sem necessidade de osteointegração. Ainda assim, fatores anatômicos e biomecânicos podem comprometer sua estabilidade primária. No estudo, participaram 60 pacientes (49 mulheres e 11 homens, média de 21 anos de idade), totalizando 101 DATs avaliados. O critério de falha foi a perda de ancoragem dentro dos primeiros seis meses após a instalação.
A taxa geral de falha observada foi de 15,8%, com 16 dispositivos apresentando perda de estabilidade. A análise estatística buscou relacionar o insucesso com variáveis como sexo, idade, padrão esquelético sagital e vertical, densidade óssea cortical e medular, comprimento de contato ósseo, perfuração do seio maxilar e, principalmente, o contato com a raiz dentária.
Contato radicular: o principal fator associado à falha
Entre todos os fatores avaliados, apenas o contato radicular apresentou associação estatisticamente significativa com a falha do DAT. Os resultados mostraram que dispositivos com contato radicular tinham 28 vezes mais chances de falhar em relação aos que estavam livres dessa interferência. Em 85% dos casos bem-sucedidos não havia contato entre o miniparafuso e as raízes adjacentes, enquanto 75% dos DATs que falharam apresentavam contato radicular direto.
O contato entre o DAT e a raiz interfere na estabilidade mecânica e no processo de remodelação óssea. A transmissão de forças oclusais por meio do dente para o miniparafuso pode inibir a formação de novo osso e favorecer a invasão de tecido fibroso ao redor do implante. Essa resposta biológica leva à perda da estabilidade primária e, consequentemente, à falha clínica do dispositivo.
Papel da tomografia computadorizada de feixe cônico na prevenção de falhas
A TCFC se destaca por oferecer visualização tridimensional precisa das estruturas ósseas e radiculares, permitindo uma análise detalhada do espaço inter-radicular antes da instalação do DAT. No estudo, as imagens foram obtidas com equipamentos de alta resolução, com cortes entre 0,3 e 0,48 mm e campo de visão adaptado ao local de inserção.
Essa abordagem possibilitou avaliar a relação tridimensional entre o dispositivo, o osso cortical e as raízes dentárias. A mensuração da densidade óssea foi realizada em unidades HU (Hounsfield Units) estimadas, validadas por correlação com exames de tomografia médica convencional (MDCT). Os pesquisadores observaram que a TCFC permitiu identificar situações de risco antes da instalação, como espaço inter-radicular reduzido e proximidade excessiva da raiz.
A aplicação prévia da TCFC também auxilia na seleção do comprimento e diâmetro ideais do DAT, no planejamento do vetor de inserção e na definição da área óssea mais favorável. Isso reduz significativamente o risco de intercorrências como perfuração radicular, contato periodontal e instabilidade inicial.
Outras variáveis anatômicas e biomecânicas
A análise também investigou fatores como padrões esqueléticos verticais e sagitais, densidade óssea e comprimento de contato cortical. Embora o padrão vertical tenha apresentado diferença significativa na análise univariada, essa relação não se manteve após a regressão logística multivariada. Isso indica que a espessura cortical, frequentemente menor em indivíduos hiperdivergentes, pode influenciar a estabilidade, mas não de forma isolada.
Nem a densidade óssea nem o comprimento de contato cortical e trabecular apresentaram associação significativa com o insucesso. A presença de perfuração do seio maxilar também não se correlacionou com falhas, sugerindo que pequenas perfurações (<2 mm) cicatrizam sem impacto funcional. Esses achados reforçam que o contato radicular é o principal elemento crítico na falha dos DATs.
Considerações clínicas
Os resultados do estudo destacam a importância de um protocolo de planejamento detalhado antes da inserção dos DATs. A avaliação com TCFC permite determinar a quantidade de osso alveolar disponível e o espaço inter-radicular adequado, minimizando riscos de contato com as raízes. O uso de guias cirúrgicos digitais, baseados nas imagens tomográficas, pode aprimorar ainda mais a precisão da inserção.
Além disso, a escolha do local de inserção, geralmente entre o segundo pré-molar e o primeiro molar superiores, deve considerar a espessura óssea e a anatomia individual. A literatura sugere que ao menos 1,4 mm de osso deve estar presente em cada lado do miniparafuso para evitar contato radicular. DATs com diâmetro menor que 1,5 mm tendem a reduzir o risco de interferência radicular e mantêm estabilidade adequada.
Outro aspecto relevante é o controle das forças ortodônticas aplicadas após a instalação. A mobilidade dentária fisiológica decorrente da remodelação óssea pode modificar a relação entre o dente e o DAT, principalmente em regiões de contato próximo. Assim, a reavaliação radiográfica durante o tratamento é recomendada para prevenir falhas tardias.
Implicações para a prática ortodôntica
A TCFC vem se consolidando como exame essencial no planejamento de ancoragem ortodôntica. Sua aplicação não deve ser restrita apenas a casos complexos, mas incorporada rotineiramente na avaliação pré-implante de DATs. A visualização tridimensional das raízes, da espessura cortical e da topografia alveolar permite que o ortodontista estabeleça um plano de instalação mais seguro e previsível. Na prática clínica, a integração entre a TCFC e o planejamento digital permite maior segurança, previsibilidade e conservação das estruturas dentárias.
Na Fenelon Diagnósticos Odontológicos por Imagem, os exames de tomografia computadorizada são realizados com equipamentos de alta precisão, conforme indicação clínica do cirurgião-dentista responsável, contribuindo com o planejamento odontológico especializado.
Referência:
[1] Amane Yamaguchi, So Koizumi, Ryosuke Ikenaka, Tetsutaro Yamaguchi, Use of cone-beam computed tomography for investigation of factors affecting the failure of temporary anchorage devices, Journal of Oral Science, 2024, Volume 66, Issue 4, Pages 247-253, Released on J-STAGE October 16, 2024, Online ISSN 1880-4926, Print ISSN 1343-4934, https://doi.org/10.2334/josnusd.24-0180