Avaliação CBCT do canal incisivo maxilar 

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Avaliação CBCT do canal incisivo maxilar para ancoragem implantada

A reabilitação com implantes na região anterior da maxila permanece um desafio clínico em situações de atrofia óssea severa ou comprometimento significativo do osso alveolar. Nessas condições, a disponibilidade óssea reduzida limita a instalação de implantes convencionais em posição intraóssea, exigindo estratégias de ancoragem alternativas baseadas em estruturas corticais remanescentes. Entre essas estruturas, o canal incisivo maxilar, também denominado canal nasopalatino (NPC), tem sido progressivamente reavaliado quanto ao seu potencial como sítio de ancoragem implantada. 

 

Tradicionalmente, o NPC foi considerado uma área de risco, em função de seu conteúdo neurovascular e de sua variabilidade anatômica. Entretanto, avanços no entendimento biomecânico da ancoragem cortical, aliados ao uso rotineiro da tomografia computadorizada por feixe cônico (CBCT), permitiram uma análise tridimensional detalhada dessa região, favorecendo abordagens cirúrgicas mais individualizadas. 

 

Nesse contexto, um estudo multicêntrico[1] recente avaliou as características anatômicas do NPC por meio de CBCT, com o objetivo de verificar sua adequação para ancoragem de implantes em maxilas atróficas. Confira! 

 

Importância do canal incisivo maxilar no planejamento implantodôntico 

 

O canal incisivo localiza-se na linha média da maxila anterior, posterior aos incisivos centrais, estendendo-se da fossa incisiva até a cavidade nasal. Seu conteúdo inclui o nervo nasopalatino e ramos vasculares associados, sendo delimitado por paredes corticais cuja espessura e configuração variam amplamente entre os indivíduos. Em casos de reabsorção avançada da crista alveolar, essas paredes corticais podem representar uma das poucas estruturas ósseas remanescentes capazes de fornecer estabilidade primária aos implantes. 

 

A possibilidade de utilizar o NPC como área de ancoragem está diretamente relacionada à compreensão de sua morfologia, dimensões e relação com as tábuas ósseas vestibular e palatina. A CBCT se apresenta como método de escolha para essa avaliação, por permitir mensurações precisas em múltiplos planos, com alta resolução espacial e menor exposição à radiação quando comparada à tomografia computadorizada convencional. 

 

Desenho metodológico do estudo baseado em CBCT 

 

O estudo utilizou uma amostra retrospectiva de 150 exames de CBCT provenientes de três centros clínicos distintos, abrangendo pacientes adultos com visualização completa da maxila anterior, desde a crista alveolar até a abertura piriforme. As imagens foram adquiridas com voxel de 0,2 mm e avaliadas nos planos axial, sagital e coronal por avaliadores experientes, com protocolo padronizado de mensuração. 

 

Foram analisados parâmetros relacionados ao comprimento do canal, largura em diferentes níveis, número de canais e aberturas, bem como as distâncias entre o NPC e as tábuas ósseas vestibular e palatina. A análise estatística incluiu medidas descritivas e testes de correlação, permitindo identificar relações entre as dimensões anatômicas do canal e o potencial de ancoragem cortical. 

 

Características anatômicas do canal incisivo segundo a CBCT 

 

Os resultados demonstraram que o comprimento médio do canal incisivo foi de aproximadamente 10,27 mm, com variações relevantes entre os indivíduos. A largura média do canal na base do palato foi de 3,87 mm, enquanto na base da cavidade nasal atingiu valores próximos a 4,06 mm. No plano axial, o diâmetro médio do canal foi de 3,55 mm, com registros de diâmetros mais amplos em canais únicos. 

 

Em relação ao número de canais, a maioria dos casos apresentou configuração de canal único, embora também tenham sido observadas variações com dois canais. O número médio de aberturas palatinas foi de 1,09, refletindo a predominância de anatomias menos complexas, porém sem excluir a presença de ramificações adicionais em determinados pacientes. 

 

As distâncias entre o canal e as tábuas ósseas adjacentes também apresentaram relevância clínica. A distância média do NPC à tábua vestibular foi de aproximadamente 6,49 mm, enquanto a espessura óssea palatina média foi de 3,57 mm. Esses valores indicam que, mesmo em maxilas atróficas, pode haver volume ósseo suficiente para obtenção de ancoragem cortical, desde que o planejamento seja criterioso. 

 

Correlações anatômicas e implicações biomecânicas 

 

A análise de correlação revelou associações positivas entre a largura do canal e a espessura óssea disponível nas tábuas adjacentes. Destacou-se a correlação entre a distância do canal à tábua vestibular e o aumento global das dimensões do NPC, sugerindo que canais mais amplos tendem a apresentar maior potencial de ancoragem cortical. 

 

Do ponto de vista biomecânico, a utilização das paredes corticais do NPC pode favorecer a estabilidade primária por osteofixação, reduzindo a dependência exclusiva da osseointegração em osso trabecular de baixa densidade. Essa abordagem se mostra especialmente relevante em protocolos de carga imediata ou precoce, nos quais a estabilidade inicial do implante é determinante para o sucesso clínico. 

 

Estratégias clínicas de utilização do NPC para ancoragem implantada 

 

Com base nas características anatômicas observadas, diferentes estratégias de posicionamento implantado podem ser consideradas. Entre elas, destacam-se a instalação do implante em contato com uma das paredes corticais do canal, o cruzamento do NPC em sentido ântero-posterior ou mésio-distal, e, em situações selecionadas, a instalação direta no interior do canal após manejo adequado de seu conteúdo. 

 

O estudo enfatiza que implantes de corpo único, com superfície polida, apresentam vantagens nesse contexto, por reduzirem o risco de migração de tecidos moles para a interface implante-osso. A ampla variação de diâmetros disponíveis nesses sistemas permite adaptação às dimensões individuais do canal incisivo, favorecendo uma abordagem personalizada. 

 

Limitações e considerações para a prática clínica 

 

Apesar de fornecer dados anatômicos detalhados, o estudo apresenta limitações inerentes ao seu delineamento retrospectivo. A ausência de acompanhamento clínico longitudinal impede a correlação direta entre as características do NPC e os índices de sucesso ou complicações dos implantes instalados nesta região. Adicionalmente, a amostra analisada representa uma população específica, o que pode limitar a extrapolação dos resultados para outros grupos populacionais. 

 

Ainda assim, os achados reforçam a necessidade de avaliação individualizada por meio de CBCT antes de qualquer intervenção implantodôntica na maxila anterior. A análise criteriosa das dimensões do canal incisivo, de sua morfologia e de sua relação com estruturas adjacentes permite reduzir riscos neurovasculares e aumentar a previsibilidade do tratamento. 

 

Considerações finais 

 

A avaliação CBCT das características do canal incisivo maxilar demonstra que o NPC pode representar uma alternativa viável para ancoragem implantada em casos de atrofia óssea severa da maxila anterior. O conhecimento detalhado de sua anatomia, aliado à seleção adequada do tipo de implante e da técnica cirúrgica, possibilita explorar estruturas corticais remanescentes sem comprometer a segurança diagnóstica. 

 

Na Fenelon Diagnósticos Odontológicos por Imagem, os exames de tomografia computadorizada são realizados com equipamentos de alta precisão, conforme indicação clínica do cirurgião-dentista responsável, contribuindo com o planejamento odontológico especializado. 


 

Referência: 

[1] Calin, F., Dalewski, B., Ellmann, M., Kiczmer, P., Ihde, S., Bieńkowska, M., Kotuła, J., & Pałka, Ł. (2025). CBCT Evaluation of Maxillary Incisive Canal Characteristics Among Population in Regard to Possibility of Implant Cortical Anchorage—A Multicenter StudyDentistry Journal, 13(5), 211. https://doi.org/10.3390/dj13050211 

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