Tomografia computadorizada e caninos impactados

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Tomografia computadorizada e a avaliação de caninos superiores impactados

A impacção de caninos superiores é uma condição comum na ortodontia, com prevalência de até 3% na população. Esses casos exigem avaliação detalhada, pois o posicionamento ectópico do canino pode comprometer dentes adjacentes, principalmente os incisivos laterais, aumentando o risco de reabsorção radicular.

Tradicionalmente, o diagnóstico é realizado por meio de radiografias bidimensionais, que oferecem apenas uma projeção limitada das estruturas anatômicas. A tomografia computadorizada de feixe cônico (TCFC) tem modificado esse cenário, permitindo visualização tridimensional precisa e maior previsibilidade terapêutica.

Um estudo prospectivo publicado no European Journal of Orthodontics (2023) [1] avaliou o impacto da TCFC no planejamento de tratamento de caninos superiores impactados. A pesquisa demonstrou que o exame tridimensional resultou em mudança de conduta em um terço dos casos, consolidando seu valor clínico em ortodontia.

Tomografia computadorizada na avaliação inicial de caninos impactados

O estudo incluiu 125 caninos impactados, avaliados inicialmente com radiografias panorâmicas e periapicais. Pacientes com sobreposição entre o canino e dentes vizinhos, ou suspeita de reabsorção, foram encaminhados para exame de tomografia computadorizada. 

A aquisição foi feita com campo de visão de 5 × 5 cm, voxel de 0,125 mm e dose efetiva de 40 µSv — inferior à de uma tomografia médica, reforçando a segurança da TCFC. As imagens tridimensionais foram analisadas por radiologistas e reavaliadas pelos ortodontistas, que reformularam seus planos de tratamento com base nos achados adicionais. 

Entre os critérios analisados estavam a indicação de extração dentária, exposição cirúrgica, direção inicial da tração com cantilever e a necessidade de expansão maxilar. Essa metodologia permitiu comparar diretamente os planos elaborados apenas com radiografias 2D e aqueles ajustados após a tomografia. 

Mudanças no plano ortodôntico

Após a análise tomográfica, 43 dos 125 caninos (34,4%) tiveram alteração no plano de tratamento. A modificação mais frequente foi a mudança da direção de tração com cantilever (22,4%), seguida por alterações na extração de dentes adjacentes (12,8%) e ajustes na técnica de exposição cirúrgica (10,4%). Em 7,2% dos casos, houve modificação na indicação de expansão maxilar, e em 3,2%, revisão da decisão de extrair ou preservar o canino impactado. 

Essas alterações reforçam que a tomografia computadorizada fornece informações anatômicas adicionais que não podem ser obtidas de forma confiável por métodos bidimensionais. A visualização 3D da posição do canino em relação às raízes vizinhas e estruturas de suporte é determinante para reduzir riscos durante a movimentação ortodôntica. 

Outro dado importante foi o aumento significativo na detecção de reabsorções radiculares. Enquanto as radiografias panorâmicas identificaram apenas 9 dentes com reabsorção, a TCFC detectou 67 dentes afetados, correspondendo a 49,6% dos casos. Ainda que esse achado não tenha se correlacionado diretamente com mudança de conduta, evidencia o potencial diagnóstico superior da tomografia. 

Mensuração dos ângulos alfa e lateral

Um dos resultados mais relevantes do estudo foi a relação entre parâmetros angulares mensurados na radiografia panorâmica — os ângulos alfa e lateral — e a probabilidade de alteração do plano de tratamento após o exame tomográfico. 

O ângulo alfa representa a inclinação mesial do canino em relação à linha média, enquanto o ângulo lateral descreve a divergência entre o eixo do canino e o eixo do incisivo lateral adjacente. Ambos os ângulos refletem o grau de complexidade do caso e a tendência de deslocamento da coroa em direção palatina ou vestibular. 

Os resultados mostraram que ângulos alfa e lateral elevados estavam associados a maior probabilidade de mudança na conduta após a tomografia computadorizada. Em média, os casos com alteração de plano apresentaram ângulo alfa de 38,2° e lateral de 45,5°, comparados a 31,0° e 35,1° em casos sem alteração. Esse achado sugere que pacientes com valores angulares mais acentuados podem se beneficiar mais da complementação com TCFC, sobretudo quando há dúvida quanto à direção da tração ortodôntica ou proximidade com raízes adjacentes. 

Tomografia computadorizada como ferramenta para previsibilidade clínica

A integração da tomografia computadorizada ao planejamento ortodôntico de caninos impactados representa um avanço significativo em termos de segurança, previsibilidade e eficiência terapêutica. A avaliação tridimensional permite: 

  • Localizar com precisão a coroa e a raiz do canino em relação às estruturas vizinhas; 

 

  • Identificar reabsorções radiculares incipientes; 

 

  • Determinar a direção de tração ideal, reduzindo o risco de danos a dentes adjacentes; 

 

  • Avaliar o espaço ósseo disponível e a necessidade de expansão transversal; 

 

  • Planejar o acesso cirúrgico mais conservador e previsível. 

Esses benefícios reforçam o papel da TCFC como exame de escolha em casos complexos de impactação canina, especialmente quando há sobreposição ou inclinação acentuada na radiografia panorâmica. 

Critérios clínicos para indicação de tomografia computadorizada

Com base nas evidências do estudo, a indicação da tomografia computadorizada deve ser considerada quando houver:

  • Sobreposição evidente entre o canino impactado e o incisivo lateral; 

 

  • Valores elevados dos ângulos alfa e lateral na panorâmica; 

 

  • Suspeita de reabsorção radicular não confirmada por exames bidimensionais; 

 

  • Necessidade de definir a direção de tração com maior segurança antes da intervenção ortodôntica. 

A aplicação desses critérios favorece a seleção racional de pacientes que efetivamente se beneficiam do exame tridimensional, equilibrando o ganho diagnóstico e a exposição radiológica dentro dos princípios do ALARA (“As Low As Reasonably Achievable”). 

Em conclusão, a tomografia computadorizada de feixe cônico tem se mostrado fundamental no manejo de caninos superiores impactados. A adoção criteriosa da TCFC pode proporcionar maior previsibilidade e segurança durante o tratamento ortodôntico, permitindo abordagens mais individualizadas e menos invasivas.

Na Fenelon Diagnósticos Odontológicos por Imagem, os exames de tomografia computadorizada são realizados com equipamentos de alta precisão, conforme indicação clínica do cirurgião-dentista responsável, contribuindo com o planejamento odontológico especializado. 

Referência: 
 
[1] Stoustrup P, Videbæk A, Wenzel A, Matzen LH. Will supplemental cone beam computed tomography change the treatment plan of impacted maxillary canines based on 2D radiography? A prospective clinical studyEur J Orthod. 2024 Jan 1;46(1):cjad062. doi10.1093/ejo/cjad062 

 

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